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O ROSTO DA CIDADE – EMBU DAS ARTES

Caroline Derschner
28/07/2011



O processo de revisão do Plano Diretor prevê legalmente a manifestação e contribuição das pessoas na construção da cidade que elas querem, no entanto, a prefeitura da cidade desconsiderou estes esforços

Embu das artes não é só uma cidade. Embu das Artes também são as pessoas que vivem aqui.

Pessoas, nós reconhecemos pelo rosto, cada traço, cada emoção e cada conversa, conta uma história própria de identidade e personalidade.

Nossa cidade também é assim. E é pelo rosto, pela cara de Embu das Artes, que podemos reconhecer um pouquinho da história, identidade e personalidade que a cidade tem.

Mas já diz o ditado que não adianta ser só mais um rosto bonito, todo rosto tem que ter conteúdo. E o conteúdo de Embu das Artes, a vida que faz pulsar as veias dessa cidade, são as pessoas. Pessoas com rosto, história, personalidade e identidade. Pessoas que moram, trabalham, estudam, passeiam, e ocupam este espaço. Pessoas que fazem caminhadas, que produzem e compram produtos agroecológicos, que investem em turismo, que preservam suas matas, que implantam projetos socioambientais e educacionais na região, que dão aulas nas escolas, que abrem um restaurante, uma farmácia, uma empresa de serviços. Pessoas que dão vida e movimento para a cidade e querem que Embu das Artes se desenvolva preservando o rosto que a cidade já tem, para que elas também se reconheçam nesse rosto e nesse nome cheio de arte, cultura e natureza.

E natureza, nós sabemos que é um traço único no rosto de um lugar, e que muitas cidades que adotaram um modelo cinzento e predatório de desenvolvimento já não têm mais. Um traço que depois de apagado, nunca volta a ser como era antes.

As pessoas de Embu das Artes querem contar para outras pessoas de outras cidades, que por detrás do rosto de nossa cidade, há nascentes, mananciais, espécies vegetais e animais em risco de extinção, Mata Atlântica preservada, ar puro e lindas paisagens. Riquezas que por lei, devem ser conservadas e utilizadas de maneira consciente, utilizando o potencial natural que estes recursos trazem para gerar riqueza e desenvolvimento sustentável.

E as pessoas daqui sabem o que é desenvolvimento sustentável. E também sabem que o Plano diretor é um instrumento para definir o rosto, a história, a identidade e a personalidade de uma cidade para o futuro. Por isso, unida e motivada, a sociedade realizou oficinas, palestras, encontros e reuniões de planejamento para participar do processo de revisão do Plano Diretor. E para tratar de um assunto tão importante, chamou palestrantes e especialistas no assunto, como Paulo Nobre, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Dra. Maria Lúcia Refinetti Martins, especialista em Planejamento Urbano e Regional da USP, o economista Ladislau Dowbor da PUC-SP, defensor do desenvolvimento local pela Economia Criativa, e os arquitetos e urbanistas do Instituto Polis, Kazuo Nakano e Paula Santoro.

As pessoas de Embu das Artes elaboraram um diagnóstico e uma proposta detalhada de crescimento local para a Prefeitura, a favor de uma cidade mais sustentável e preservada, que conservasse as características naturais do município e trouxessem emprego, comércio, escolas, postos de saúde, habitação, ciclovias, parques, serviços e atividades como ecoturismo, artesanato, hotelaria, gastronomia, artes, educação superior e agricultura.

O processo de revisão do Plano Diretor prevê legalmente a manifestação e contribuição das pessoas na construção da cidade que elas querem, no entanto, a prefeitura da cidade desconsiderou estes esforços, e disponibilizou no site da Prefeitura, no dia 30 de Junho de 2011 a minuta da Lei do Plano Diretor que prevê a construção de um
Corredor de indústrias e logística com cerca de 3 milhões de metros quadrados que atravessa a APA Embu-Verde e a Área de Proteção aos Mananciais da Guarapiranga. Um projeto que além de trazer um impacto ambiental crescente e irreversível para a região, vai na contramão do modelo de desenvolvimento sustentável que as pessoas querem para a região.

As pessoas daqui não são contra atividades econômicas como indústrias, que mesmo não sendo tão rentáveis e gerando muito menos empregos do que as empresas de serviços no cenário da Grande São Paulo, podem existir no Embu. Podem, desde que concentradas em regiões propícias para seu desenvolvimento. O que quer dizer: nas proximidades da rodovia BR 116, portanto fora da APA Embu Verde, uma área que por lei deve ser resguardada da instalação de indústrias e galpões, do tráfego viário intenso, da emissão de poluentes e da poluição sonora e visual que essas atividades trazem, descaracterizando os atributos turísticos da região e prejudicando fauna e flora local.

Infelizmente, a cidade de Embu das Artes já tem muitas áreas degradadas e não quer virar Embu das Indústrias como tantas outras cidades. Não quer perder seu rosto, sua história, identidade e personalidade e um dia ser confundida na multidão. Ela não quer ver as chaminés e o asfalto sobre suas matas, nem a saúde e qualidade de vida de seu povo se esvaindo em meio ao planejamento de uma cidade insustentável, vendida por tão pouco (para alguns poucos especuladores) e custando tão caro no futuro.

Embu das Artes e as pessoas que aqui vivem querem continuar mostrando seu rosto em cada espaço, cada árvore, cada jovem, cada trabalhador e cada visitante que vem até aqui. E que em todos esses rostos juntos se reconheça, além de uma história, uma identidade e uma personalidade, também um sorriso.




Caroline Derschner é autora do Blog Um Par de Óculos – http://umpardeoculos.blogspot.com/
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